Quando a sociedade se afasta da realidade
Há momentos em que uma sociedade parece viver em duas camadas distintas. Em uma delas, estão os fatos: dados objetivos, limites materiais, consequências concretas das ações. Na outra, estão os discursos: narrativas oficiais, valores proclamados, slogans morais e explicações reconfortantes. O problema começa quando essas duas camadas deixam de se comunicar.
Não se trata de simples ignorância. Informações estão disponíveis, evidências são repetidas, contradições são visíveis. Ainda assim, comportamentos coletivos continuam sendo guiados por narrativas que não descrevem o mundo como ele é, mas como se deseja que ele fosse. Forma-se, assim, uma realidade simbólica paralela, socialmente validada, mas empiricamente frágil.
Esse fenômeno costuma ser chamado, de forma metafórica, de “esquizofrenia social”. A expressão é forte — e justamente por isso comunica bem a gravidade do problema. No entanto, mais importante do que o rótulo é entender o mecanismo: uma dissociação estrutural entre fatos e ação social.
Narrativas que substituem a realidade
Toda sociedade precisa de narrativas. Elas organizam o mundo, dão sentido às experiências e orientam escolhas. O problema surge quando essas narrativas deixam de ser mapas da realidade e passam a funcionar como substitutos dela.
Nesse ponto, não importa mais se algo é verdadeiro ou falso. Importa se é socialmente aceitável, emocionalmente confortável ou politicamente conveniente. A realidade empírica torna-se incômoda, e o discurso passa a operar de forma autônoma, protegido por consenso grupal e repetição institucional.
Quando isso ocorre, a sociedade não corrige seus erros ao confrontar os fatos — ela reinterpreta os fatos para preservar o discurso.
A negação que funciona
Um aspecto central desse processo é que ele funciona, ao menos no curto prazo. Narrativas dissociadas da realidade:
reduzem ansiedade coletiva,
protegem identidades,
evitam conflitos difíceis,
mantêm estruturas de poder.
Por isso, a desconexão não é um acidente. Ela é socialmente recompensada. Questionar o discurso dominante passa a ser visto como ameaça, e não como busca por verdade. O problema deixa de ser “estar errado” e passa a ser “não pertencer”.
Assim, cria-se um ambiente no qual a fidelidade à narrativa vale mais do que a fidelidade aos fatos.
O custo invisível
O afastamento da realidade, porém, cobra seu preço. Fatos ignorados não desaparecem. Limites materiais não negociam. Consequências postergadas retornam de forma ampliada.
Quanto mais tempo uma sociedade insiste em operar com representações fictícias, mais abrupto tende a ser o choque com o real. Crises econômicas, colapsos institucionais, fraturas sociais profundas — muitas vezes, esses eventos não surgem do nada. Eles são o resultado acumulado de uma negação organizada da realidade.
O choque não ocorre porque a realidade mudou repentinamente, mas porque ela foi ignorada por tempo demais.
Recuperar o vínculo com o real
Superar esse quadro não é simples, porque não se trata apenas de corrigir informações, mas de enfrentar incentivos sociais, emocionais e simbólicos. Reaproximar discurso e realidade exige:
aceitar desconforto,
admitir erros coletivos,
rever identidades construídas sobre narrativas frágeis.
É um processo lento e, muitas vezes, impopular. Mas é também o único caminho sustentável.
Uma sociedade saudável não é aquela que nunca erra, mas aquela que consegue corrigir suas narrativas à luz dos fatos. Quando o discurso se torna impermeável à realidade, o problema já não é ideológico — é estrutural.
Conclusão
O que está em jogo não é apenas um desacordo de opiniões, mas a capacidade coletiva de reconhecer o mundo como ele é. Quando narrativas passam a valer mais do que fatos, a sociedade não está apenas enganada — está desancorada da realidade.
E nenhuma construção social, por mais bem-intencionada ou sofisticada que seja, consegue permanecer de pé por muito tempo quando perde esse vínculo fundamental. (Texto produzido por IA)